O Diesel Verana é um diesel marítimo premium da Petrobras, feito para lanchas, iates e outras embarcações de lazer. A diferença principal para o diesel comum do posto é que ele não leva biodiesel, tem enxofre ultrabaixo (máximo de 10 ppm) e recebe aditivos para ficar estável durante longos períodos com o barco parado[1]. Desde janeiro de 2026, ele tem 5% de conteúdo renovável, obtido por um processo diferente do biodiesel[1][2].
Já o diesel que você encontra na bomba do posto de rua é o B15: desde 1º de agosto de 2025, ele tem 15% de biodiesel na mistura[5]. Para um carro ou um caminhão que roda todo dia, isso não costuma ser problema. Para um barco que passa semanas na marina com o tanque meio cheio, o biodiesel exige mais cuidado com água, fungos e bactérias no tanque[6][7].
Neste artigo eu explico o que é o diesel náutico, o que muda em relação ao diesel comum, o que a norma brasileira exige, como cuidar do combustível a bordo e como decidir o que usar no seu barco.
O que é diesel náutico
Diesel náutico, ou diesel marítimo, é o nome do combustível destinado a motores de embarcações. No Brasil, ele é regulado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na Resolução nº 903, de 2022, que trata dos combustíveis de uso aquaviário, ou seja, usados na água[4].
A resolução define dois tipos principais[4]:
- Óleo diesel marítimo A (DMA): combustível destilado médio, para uso aquaviário. É o diesel marítimo “limpo”, só de destilado.
- Óleo diesel marítimo B (DMB): predominantemente destilado, mas pode conter pequenas quantidades de óleos de processo do refino.
A mesma norma proíbe vender combustível aquaviário fora dessas especificações e exige que o distribuidor analise uma amostra do lote e emita um boletim de conformidade antes da venda[4]. Isso quer dizer que o diesel marítimo vendido legalmente na marina passou por um controle de qualidade próprio.
O que é o Diesel Verana
O Verana é apresentado pela Petrobras como o primeiro diesel náutico premium do mercado brasileiro. Foi desenvolvido e testado pelo Cenpes, o centro de pesquisas da empresa, em condições de operação no mar, para os motores modernos de embarcações de lazer[1][2].
Segundo o fabricante, as características principais são[1]:
- Sem biodiesel: o fabricante afirma que o produto não contém biodiesel, que pode acelerar a degradação do combustível em longos períodos parados.
- Enxofre ultrabaixo: máximo de 10 ppm (partes por milhão), contra até 5.000 ppm permitidos no óleo diesel marítimo comum.
- Número de cetano mínimo de 51: o cetano mede a facilidade com que o diesel entra em combustão. Quanto maior, mais fácil a partida e mais suave a queima.
- Ponto de fulgor acima de 60 °C: é a temperatura em que o combustível solta vapor capaz de pegar fogo com uma chama. Valor alto significa mais segurança no armazenamento a bordo.
- Aditivos: antioxidante, para dar mais estabilidade; detergente e dispersante, para limpar e evitar depósitos; antiespumante, para abastecer sem formar espuma.
- Aromatizante: uma fragrância que suaviza o cheiro característico do diesel, pensada para o conforto a bordo.
O fabricante também cita um sistema de filtragem dupla nos postos de abastecimento, para reter partículas sólidas e água antes de o combustível chegar ao barco[1].
Os 5% de conteúdo renovável
Em janeiro de 2026, a Petrobras anunciou que o Verana passou a ter 5% de conteúdo renovável na composição[2][3]. A parte renovável vem de óleos vegetais ou gordura animal, mas não é biodiesel.
A diferença está no processo. O biodiesel comum é fabricado por transesterificação, uma reação que transforma o óleo vegetal em um combustível parecido com o diesel, mas com química diferente. No Verana, a matéria-prima renovável é processada junto com o diesel mineral dentro da refinaria, por hidrogenação, no chamado coprocessamento. O resultado, segundo a empresa, é uma parcela renovável mais estável e livre de glicerina e de outros contaminantes[1].
A composição informada é de 95% de diesel mineral e 5% de matérias-primas renováveis, com redução de cerca de 3% nas emissões de gases de efeito estufa no ciclo de vida, do poço ao uso[1][2]. O produto é fabricado na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP), e foi lançado inicialmente no Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em Santa Catarina e em São Paulo[2][3]. Segundo a empresa, a mudança não exige adaptação nos motores[2].
Diesel marítimo, Verana e diesel do posto: a comparação
| Característica | Diesel marítimo DMA (limite da ANP) | Diesel Verana (dados do fabricante) | Diesel do posto de rua |
|---|---|---|---|
| Biodiesel | Sem mistura obrigatória; a norma tolera apenas traços, abaixo de 1% em volume | Sem biodiesel | 15% (B15) desde agosto de 2025 |
| Enxofre máximo | 0,5% em massa (5.000 ppm) | 10 ppm | Depende do tipo vendido |
| Ponto de fulgor mínimo | 60 °C | Acima de 60 °C | Não comparado neste artigo |
| Cetano | Índice de cetano mínimo de 40 | Número de cetano mínimo de 51 | Não comparado neste artigo |
| Conteúdo renovável | Não previsto | 5%, por coprocessamento | Os 15% de biodiesel |
Repare que a norma da ANP define limites mínimos para o diesel marítimo. O Verana é um produto que fica bem acima desses limites em vários pontos, especialmente no enxofre. Para o motorista de carro, vale a comparação: o diesel marítimo comum pode ter muito mais enxofre do que o diesel de baixo teor usado nos veículos modernos.
Por que o biodiesel pede mais cuidado em barcos
O biodiesel tem vantagens ambientais e funciona bem em quem roda todo dia. O problema aparece quando o combustível fica muito tempo parado, que é a rotina de muitos barcos de lazer. Três motivos explicam isso.
Ele atrai água
O biodiesel é higroscópico, ou seja, absorve umidade do ar com mais facilidade do que o diesel mineral[7][8]. Em um barco, a umidade está por toda parte: no ar salgado, na chuva que entra pelo bocal mal vedado, na condensação dentro do tanque. A água é mais pesada que o diesel e se acumula no fundo do tanque[8].
A água alimenta a “praga do diesel”
Na divisa entre a água e o combustível vivem bactérias e fungos que se alimentam do diesel. Esse problema é conhecido como “diesel bug”, a praga do diesel. Basta um traço de água, livre ou misturada ao combustível, para a colônia crescer[6]. Ela forma uma borra escura e ácida que entope filtros, prejudica os bicos injetores e corta a potência do motor[8].
Em um teste da revista americana Practical Sailor, os microrganismos cresceram quase 10 vezes mais rápido na mistura com 20% de biodiesel do que no diesel puro[6]. Um especialista ouvido pela revista inglesa Yachting Monthly afirma que o biodiesel pode abrigar mais de mil espécies de bactérias[7]. Curiosidade: apesar de muita gente chamar de “alga”, a mesma reportagem lembra que não há algas no tanque, porque lá dentro não entra luz[7].
Ele oxida com o tempo
O biodiesel é menos estável e pode oxidar dentro do sistema de combustível[8][9]. Por isso, a fabricante de motores náuticos Volvo Penta orientava, em reportagem de 2011 da revista Soundings, esvaziar o sistema e rodar com diesel sem biodiesel antes de longos períodos de parada, como o inverno no hemisfério norte[9]. A mesma orientação pedia trocar o filtro de combustível mais cedo, porque o biodiesel solta depósitos antigos do tanque, e inspecionar mangueiras de borracha e peças de plástico com mais frequência[9].
Essa recomendação é antiga e vale para aquele fabricante. O que serve para o seu barco está no manual do motor que você tem.
Sinais de que o combustível do barco está contaminado
Fique atento a estes sintomas[8]:
- Filtro de combustível entupindo em pouco tempo.
- Perda de potência ou motor falhando em rotação alta.
- Problemas nos bicos injetores.
- Combustível com aspecto leitoso ou turvo no copo do separador de água.
- Borra escura no fundo do filtro ou do separador.
Em casos graves, a única saída é esvaziar e limpar o tanque. Na reportagem da Yachting Monthly, a limpeza de um tanque de 150 litros custou cerca de 480 libras esterlinas no Reino Unido[7]. É um gasto que a prevenção evita.
Como cuidar do diesel a bordo
Seja qual for o diesel que você usa, estes cuidados reduzem muito o risco de problema:
- Drene o separador de água com frequência. O filtro separador é a principal defesa contra a água no combustível[6]. Abra o dreno, deixe sair a água acumulada e confira se o combustível sai limpo[8].
- Tenha filtros de reserva a bordo. Um filtro entupido no meio do passeio deixa o barco parado. Elementos de papel contaminados podem se desfazer, então leve sobressalentes[7].
- Confira a vedação do bocal de abastecimento. Uma tampa com anel gasto deixa entrar água de chuva e de lavagem[7].
- Reduza o espaço de ar no tanque. Tanque mais cheio tem menos ar e menos condensação. Uma dica prática é abastecer no fim do dia, depois do passeio[8].
- Use biocida quando houver risco. Biocida é um aditivo que mata bactérias e fungos no combustível. Ele não remove a borra que já se formou, mas ajuda a impedir que ela volte[6][8].
- Não esvazie o resto do galão no tanque. O fundo de galões e bombonas costuma acumular água e sujeira[8].
- Planeje as paradas longas. Em condições normais, o diesel costuma continuar utilizável por cerca de um ano[8]. Se o barco vai ficar meses sem sair, converse com o mecânico sobre o melhor procedimento para o seu motor.
Tanque cheio ou vazio na parada?
Aqui as fontes não concordam. A recomendação tradicional é manter o tanque o mais cheio possível, para reduzir o ar e a condensação[6][8]. Já a empresa de limpeza de tanques ouvida pela Yachting Monthly defende o contrário: não completar antes de uma parada longa, para não deixar muito combustível envelhecendo[7]. Os dois lados concordam no essencial: o problema é a água, e quem controla a água controla a praga do diesel. Na dúvida, siga o manual do motor e o seu mecânico de confiança.
Esses cuidados lembram os de um carro que fica muito tempo parado na garagem. Se você também tem um veículo assim, veja o nosso guia sobre como guardar o carro parado.
O que dizem os postos sobre o diesel com mais biodiesel
A própria ANP reconhece que mais biodiesel pede mais atenção. Quando o B15 entrou em vigor, a agência orientou os postos a redobrar a atenção com a troca de filtros, o monitoramento de água e a drenagem dos fundos de tanque[5]. Desde a Resolução ANP nº 968/2024, a drenagem semanal do fundo dos tanques de diesel é obrigatória nos postos, com registro guardado por pelo menos um ano[5].
Se o tanque do posto exige esse cuidado, o tanque do seu barco também merece. A diferença é que, no barco, quem faz a drenagem é você.
Vale a pena usar diesel náutico premium?
A resposta depende de como você usa o barco. Algumas perguntas ajudam a decidir:
- O barco fica muito tempo parado? Quanto maior o intervalo entre os passeios, maior o peso da estabilidade do combustível. É justamente aí que um diesel sem biodiesel e com antioxidante faz mais sentido[1][9].
- O que diz o manual do motor? O fabricante do motor define qual combustível é aceito. É a primeira referência, antes de qualquer outra.
- Tem onde abastecer? O produto foi lançado em quatro estados[2][3]. Fora deles, pode não haver oferta na sua marina.
- Você já cuida bem do tanque? Drenagem, filtros e vedação continuam necessários com qualquer combustível. Nenhum diesel resolve sozinho um tanque cheio de água.
Na minha visão, o ponto mais importante para o dono de barco de lazer não é a marca do combustível, e sim saber que o diesel comum do posto de rua tem 15% de biodiesel e se comporta de forma diferente quando fica parado. Sabendo disso, você escolhe com informação e ajusta a manutenção.
Se você usa diesel também no carro ou na caminhonete, o nosso artigo sobre aditivo para diesel explica os tipos de aditivo e quando cada um faz sentido.
Perguntas Frequentes
O Diesel Verana tem biodiesel?
Não, segundo o fabricante. Ele tem 5% de conteúdo renovável, mas obtido por coprocessamento na refinaria, um processo diferente do biodiesel[1][2].
Posso usar o diesel do posto de rua no barco?
Quem define isso é o manual do motor da embarcação. Lembre que o diesel rodoviário tem 15% de biodiesel[5], o que pede mais cuidado com água e com paradas longas[6][7].
O que é a “praga do diesel”?
É a contaminação do combustível por bactérias e fungos que vivem na água acumulada no fundo do tanque. Ela forma uma borra escura que entope filtros e prejudica a injeção[8].
Quanto tempo o diesel dura parado no tanque?
Em condições normais de armazenamento, cerca de um ano[8]. Água, calor e biodiesel encurtam esse prazo.
Preciso adaptar o motor para usar o Verana?
Segundo a Petrobras, a versão com conteúdo renovável não exige adaptação nos motores[2].
Veja também
- Aditivo para Diesel: Quando Usar, Tipos e o que Cada Um Faz
- Como Guardar o Carro Parado: Proteção Completa para Períodos sem Uso
- Filtros do Carro: Guia Completo, Ar, Óleo, Combustível e Cabine
📚 Referências
- Petrobras. Diesel Verana: o 1º diesel náutico premium do mercado brasileiro. Página do produto, consultada em 4 de novembro de 2026. Fonte
- Agência Gov, via Petrobras. Petrobras oferece ao mercado novos combustíveis com conteúdo renovável. 13 de janeiro de 2026. Fonte
- Poder360. Petrobras lança diesel renovável para SUVs e náuticos. 13 de janeiro de 2026. Fonte
- ANP. Resolução ANP nº 903, de 18 de novembro de 2022: especificações dos combustíveis de uso aquaviário. DOU de 23 de novembro de 2022, texto compilado pela LegisWeb. Fonte
- ANP. Revendedores de combustíveis: ANP divulga orientações devido a chegada do E30 e B15. 21 de agosto de 2025. Fonte
- Nicholson, Darrell. Diesel Biocides Take On Contaminated Boat Fuel. Practical Sailor, 19 de junho de 2009, atualizado em 14 de abril de 2021. Fonte (inglês)
- Du Port, Andy. Diesel bug: How to get rid of it and why it’s getting worse. Yachting Monthly, 24 de dezembro de 2024. Fonte (inglês)
- Haywood, Michelle. There’s a fuel bug going around. British Sub-Aqua Club, 28 de outubro de 2020. Fonte (inglês)
- Pope, Esther. Volvo’s stance on biodiesel. Soundings, janeiro de 2011. Fonte (inglês)
Este conteúdo é informativo e não substitui o manual do motor da embarcação nem a orientação de um mecânico náutico. As especificações do produto citado são as divulgadas pelo fabricante e podem mudar.

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